Contrato de gaveta é o nome popular dado ao acordo particular utilizado para negociar um imóvel sem formalizar imediatamente a transferência perante o Cartório de Registro de Imóveis ou, quando existe financiamento, sem a participação da instituição financeira.
Nessa operação, o comprador normalmente assume as parcelas, recebe a posse e passa a utilizar o imóvel. Entretanto, a matrícula permanece em nome do vendedor.
O problema está justamente nessa diferença entre ocupar, pagar e ser juridicamente reconhecido como proprietário.
O contrato transfere a propriedade?
Não.
De acordo com o artigo 1.245 do Código Civil, a propriedade imobiliária é transferida mediante o registro do título no Cartório de Registro de Imóveis.
Enquanto isso não acontece, o vendedor continua sendo considerado o proprietário perante terceiros, mesmo que o comprador tenha pagado o preço e recebido as chaves.
O contrato particular pode produzir direitos e obrigações entre os envolvidos, mas não substitui automaticamente o registro da transferência.
Quais são os principais riscos para o comprador?
1. O imóvel continua oficialmente em nome do vendedor
Como o vendedor permanece na matrícula, problemas ocorridos depois da negociação podem atingir o imóvel.
Dívidas, ações judiciais, penhoras, indisponibilidades e questões sucessórias podem dificultar ou até impedir a regularização.
2. O vendedor pode falecer
Se o proprietário registral falecer antes da transferência, o imóvel poderá ser incluído no inventário.
O comprador precisará apresentar o contrato e comprovar a negociação perante os herdeiros ou no processo sucessório. Se houver conflito, a solução poderá depender de ação judicial.
3. Pode ocorrer uma nova venda
Um vendedor de má fé poderá negociar o mesmo imóvel com outra pessoa.
Sem o registro da promessa de compra e venda ou da transferência, o comprador do contrato de gaveta terá maior dificuldade para proteger seus direitos contra terceiros.
4. O financiamento permanece ligado ao vendedor
Quando o imóvel está financiado, o contrato de gaveta não altera automaticamente o devedor perante o banco.
Mesmo que o comprador pague as parcelas, a dívida, o contrato e o histórico da operação continuam vinculados ao mutuário original.
Se houver atraso, o vendedor poderá sofrer restrições de crédito e o imóvel poderá passar pelo procedimento de execução da garantia.
5. O banco pode não aceitar a transferência posteriormente
A Lei nº 9.514 estabelece que a transmissão dos direitos sobre um imóvel alienado fiduciariamente depende da anuência expressa do credor.
Isso significa que o comprador não deve presumir que poderá transferir o financiamento quando desejar. O banco poderá exigir análise de crédito, comprovação de renda e atendimento às regras vigentes naquele momento.
6. Regularizar pode custar mais do que o esperado
A formalização posterior poderá envolver:
- Quitação ou transferência do financiamento.
- Impostos e despesas cartorárias.
- Certidões atualizadas.
- Reconhecimento de assinaturas e comprovação dos pagamentos.
- Honorários jurídicos.
- Ação de adjudicação compulsória, quando não houver colaboração do vendedor.
O preço aparentemente vantajoso pode desaparecer quando todos esses custos são calculados.
O contrato de gaveta não possui nenhum valor?
Essa também seria uma conclusão incorreta.
O contrato pode comprovar a relação existente entre as partes e fundamentar medidas judiciais. A Súmula nº 239 do STJ estabelece que a adjudicação compulsória não depende do registro prévio do compromisso de compra e venda.
Porém, isso não significa que qualquer documento garantirá automaticamente a propriedade. O comprador ainda poderá precisar comprovar pagamento, validade do negócio, identificação do imóvel e cumprimento das obrigações assumidas.
Ter a possibilidade de entrar com uma ação não oferece a mesma segurança de realizar a aquisição corretamente desde o início.
Como comprar um imóvel financiado com segurança?
A negociação deve ser formalizada com a participação da instituição financeira.
O comprador precisa passar pela análise de crédito e assumir oficialmente as obrigações, ou o financiamento deve ser quitado durante a operação.
Antes de qualquer pagamento, também é necessário verificar:
- Matrícula atualizada do imóvel.
- Saldo devedor do financiamento.
- Restrições registradas.
- Dívidas de condomínio e IPTU.
- Documentos e certidões do vendedor.
- Regras do banco para transferência ou quitação.
- Forma segura de pagamento.
Pagamentos informais não devem ser realizados apenas com base em confiança, procuração ou promessa de regularização futura.
Conclusão
O contrato de gaveta pode parecer uma solução rápida para comprar um imóvel, especialmente quando o comprador ainda não consegue aprovação bancária.
Entretanto, ele não transfere sozinho a propriedade e pode expor as partes a riscos financeiros, sucessórios, registrais e judiciais.
O caminho mais seguro é analisar a matrícula, envolver o banco quando houver financiamento e formalizar a transferência corretamente.
Está avaliando a compra de um imóvel com documentação pendente ou financiamento ativo? Fale com a EvoluLar antes de assumir o compromisso e faça uma análise completa da negociação.